Arquivo da tag: UJS

Chávez, o nome do povo e da revolução bolivariana

“Seu nome atravessará os séculos, bem como sua obra!”, disse Friedrich Engels, em discurso no funeral de Karl Marx, há 130 anos, neste mesmo mês de março, em 1883.

O mesmo podemos dizer de Hugo Rafael Chávez Frias. O principal líder venezuelano desde Simon Bolivar, e um dos maiores líderes da América Latina e Caribe em todos os tempos. Um dos mais importantes líderes políticos da atualidade no mundo. Seu grande legado, sua imensa obra, é a revolução bolivariana, movimento que atravessará os séculos pela sua força e pela sua raiz popular na Venezuela, e por sua contribuição decisiva para a luta dos povos latino-americanos e caribenhos por sua segunda e verdadeira independência.

O comandante e presidente Hugo Chávez foi um líder do pensamento e da ação revolucionária contemporânea em nosso continente. Um pensamento sincrético, é verdade, com insuficiências e imprecisões teóricas, mas um pensamento anti-imperialista, socialista e revolucionário, coerente e de imensa contundência, herdeiro do melhor pensamento patriótico e internacionalista latino-americano e caribenho, e fortemente influenciado pelo marxismo e pela Revolução Cubana.

Além de resgatar e promover as ideías de Francisco de Miranda, Simon Bolívar e José Marti, Chávez também fez o mesmo com o brasileiro José Inácio de Abreu e Lima, pernambucano como Lula, que lutou ao lado de Bolívar como voluntário internacionalista e foi promovido a general da luta pela independência da América espanhola. Abreu e Lima também foi um pensador socialista utópico, que o eurocentrismo demora em reconhecer, o primeiro pensador socialista brasileiro e um dos primeiros latino-americanos a escrever sobre “O Socialismo”, título de seu livro. As obras da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, empreendimento binacional que homenageia este importante herói brasileiro, foram inauguradas por Lula e Chávez.

Entertanto, Chávez foi sobretudo um líder da ação revolucionária e anti-imperialista. Destaca-se em 1992, quando lidera uma insurreição cívico-militar que a direita pró-imperialista e até setores liberais de esquerda caracterizaram equivocadamente como “tentativa de golpe”. Ato inaugural do atual processo revolucionário venezuelano, a inciativa já fazia referência aos 200 anos de lutas independentistas no próprio nome do movimento, Movimento Revolucionário Bolivariano, MRB – 200.

Das entranhas da resistência ao neoliberalismo e à ALCA, há pouco mais de 20 anos, surge esse movimento na Venezuela, ao passo que no Brasil e nos demais países da América Latina e Caribe, com a honrosa exceção de Cuba socialista, os povos da região resistem de muitas maneiras à ofensiva neoliberal e neocolonialista. No Brasil, por exemplo, os estudantes caras pintadas animam e lideram grandes manifestações populares, desde então irrepetidas, que culminam com o impeachment e a renúncia do então presidente Collor.

Nestas duas décadas Chávez agiganta-se, pois como disse em recente entrevista o presidente do parlamento venezuelano Diosdado Cabello, Chávez hoje já não é somente ele mesmo, Chávez já é o nome pelo qual responde o povo oprimido e explorado, é a voz dos trabalhadores, é a representação da própria revolução bolivariana, é um movimento popular legítimo, patriótico, latino-americanista e socialista, é o “chavismo”.

Chávez lidera um processo que chega ao governo da Venezuela em 1998, inaugurando o atual ciclo político patriótico, democrático, popular e anti-imperialista de nosso continente. Em duas décadas esse processo alcança um rico acervo de conquistas: faz avançar a integração solidária de nossos países e povos, fortalece a soberania nacional, dá conteúdo popular e verdadeiro à democracia, e promove o desenvolvimento econômico e social, elevando o padrão de vida dos trabalhadores.

Chávez, ao lado de Fidel e Raul, Lula e Dilma, Nestor e Cristina, Correa, Evo, Tabaré e Mujica, Lugo, Ortega e outros, faz parte da liderança coletiva de um novo ciclo virtuoso da América Latina e Caribe. Com razão, Chávez disse em uma das vezes em que discursou para os movimentos sociais no Fórum Social Mundial, dessa feita em Porto Alegre, que se as ideias e o os movimentos revolucionários europeus inspiraram e influenciaram as lutas populares no mundo, inclusive em nossa região, e agora era a vez das ideias e movimentos latino-americanos inspirarem e influenciarem as lutas dos povos da Europa e de todo o mundo.

O Partido Comunista do Brasil deve orgulhar-se de todo o apoio e de toda a solidariedade que vem empenhando, desde 1992, todos esses anos a Chávez, ao povo e à revolução venezuelana. Inúmeras vezes as lideranças venezuelanas e o próprio Chávez reconheceram e agradeceram esse esforço dos comunistas brasileiros. Neste momento dífícil, é preciso renovar esse apoio e essa solidariedade ativa, ao Grande Polo Patriótico, em especial ao PSUV e ao Partido Comunista da Venezuela.

Que o povo venezuelano dê continuidade à sua revolução bolivariana, agora liderada por Nicolas Maduro, com dignidade, altivez, alegria e sorriso largo, com unidade e disciplina, como Chávez os ensinou. Esse é o legado maior de Chávez, a revolução bolivariana, patriótica, latino-americanista e internacionalista.

Na Venezuela cunhou-se o lema “somos todos Chávez”. Nesse momento de dor e tristeza, há esperança pois o povo venezuelano e os povos latino-americanos e caribenhos somos todos Chávez. Como escreveu Capinam em letra musicada por Gilberto Gil, em homenagem a Che Guevara, “el nombre del hombre es pueblo”.

Ricardo Alemão Abreu – Secretário de Relações Internacionais do PCdoB

Organizações de juventude preparam jornada de lutas unificada para o mês de março

Plenária de movimentos da juventude brasileira reúne mais de 20 entidades em SP no sábado (23)

Ato é a preparação para uma grande Jornada de Lutas unificada em março e abril, por todo o país; UNE, MST, CUT, CTB UBES, UJS, JPT, JSB, JPL, Fora do Eixo, movimentos de mulheres, do hip hop, ciclistas, skatistas, e outros grupos estarão presentes

Mais de vinte movimentos ligados à educação, juventude, cultura, esporte, trabalho, mulheres, questão racial, transporte e direito à terra no Brasil participam de um grande ato em São Paulo, no próximo sábado (23), à partir das 9h, no auditório do Sindicato dos Químicos.

O encontro, que é aberto ao público em geral, é preparativo para a Jornada de Lutas unificada, que será realizada em março e abril, por todo o país, pelos setores de juventude desses diversos movimentos. A coalizão é inédita no país e deverá consolidar as principais bandeiras e reivindicações dos jovens brasileiros, neste momento, aos governos federal, estaduais e municipais.

REIVINDICAÇÕES
Entre os grandes consensos está a necessidade de investimento de 10% do PIB brasileiro na educação pública, além de 100% dos royalties do petróleo e 50% do Fundo Social do Pré-Sal também no setor educacional. Outra pauta urgente e unificada é combate à violência e extermínio da população jovem e negra no Brasil, principalmente nas periferias das grandes cidades. Dados recentes do Conselho Nacional de Juventude mostram que, do total de homicídios no país, 70,6% das vítimas são negras e 53,5% são jovens com idades entre 15 e 19 anos.

A necessidade de trabalho decente para a juventude brasileira urbana, com garantia de todos seus direitos e a possibilidade de adequação das suas atividades à formação educacional e cultural também terá grande destaque entre as reivindicações, assim como a reforma agrária para o pleno desenvolvimento dos jovens nas zonas rurais. Outro tema prioritário para o movimento é a democratização dos meios de comunicação no país, combatendo o domínio dos grandes grupos econômicos sobre o setor e promovendo as novas alternativas de redes e conhecimento livre, rádios e TVs comunitárias, novas mídias e internet.

AGENDA DO ENCONTRO
Durante a parte da manhã, os movimentos realizarão um debate sobre a conjuntura nacional e seu impacto sobre a juventude. Na parte da tarde, serão planejadas, de forma mais aprofundada, as manifestações da Jornada de Lutas em diversas cidades brasileiras. Ao final, haverá atividade cultural, a partir das 18h, na Casa Fora do Eixo. O Sindicato dos Químicos fica na rua Tamandaré, 348, Liberdade. A Casa Fora do Eixo fica na rua Scuvero, 282, também no bairro da Liberdade.

SOBRE A JORNADA DE LUTAS UNIFICADA
Tradicionalmente realizada no mês de março pelas principais entidades do movimento social, a Jornada de Lutas do mês de março, neste ano, está sendo construída coletivamente com destaque para a área da juventude. A intenção é conseguir mais força e pressão a favor de temas que são considerados urgentes para todos. Os movimentos estão se reunindo desde o mês de novembro.

A Jornada de Lutas unificada deverá acontecer no final nas últimas semanas de março e primeiras semanas de abril Estão previstas grandes mobilizações organizadas em dez capitais brasileiras: Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre.

SERVIÇO
O quê? Encontro preparatório da Jornada de Lutas unificada da Juventude
Quando? Sábado, 23 de fevereiro
Debates, a partir das 9h / Atividade Cultural, a partir das 18h
Onde? Debates – Sindicato dos Químicos (Rua Tamandaré, 348, Liberdade)
Atividade Culturais – Casa Fora do Eixo (Rua Scuvero, 282, Liberdade)
Todas as atividades são abertas ao público

Injusta sentença

Reproduzo aqui nota divulgada hoje por José Dirceu. A decisão que o STF toma hoje, de condená-lo a 10 anos e 10 meses de prisão, está longe de ser inquestionável, na realidade para os que defendem a democracia em sua plenitude é uma decisão que fere preceitos constitucinais e abre graves precedentes. A José Dirceu, a solidariedade de toda a militância da União da Juventude Socialista nesse momento de nova perseguição política, amplamente comemorada pelas viuvas derrotadas na ditadura militar e que até hoje não engolem a vitória de Lula em 2002.

Injusta sentença

Dediquei minha vida ao Brasil, a luta pela democracia e ao PT. Na ditadura, quando nos opusemos colocando em risco a própria vida, fui preso e condenado. Banido do país, tive minha nacionalidade cassada, mas continuei lutando e voltei ao país clandestinamente para manter nossa luta. Reconquistada a democracia, nunca fui investigado ou processado. Entrei e saí do governo sem patrimônio. Nunca pratiquei nenhum ato ilícito ou ilegal como dirigente do PT, parlamentar ou ministro de Estado. Fui cassado pela Câmara dos Deputado e, agora, condenado pelo Supremo Tribunal Federal sem provas porque sou inocente.

A pena de 10 anos e 10 meses que a suprema corte me impôs só agrava a infâmia e a ignomínia de todo esse processo, que recorreu a recursos jurídicos que violam abertamente nossa Constituição e o Estado Democrático de Direito, como a teoria do domínio do fato, a condenação sem ato de ofício, o desprezo à presunção de inocência e o abandono de jurisprudência que beneficia os réus.

Um julgamento realizado sob a pressão da mídia e marcado para coincidir com o período eleitoral na vã esperança de derrotar o PT e seus candidatos. Um julgamento que ainda não acabou. Não só porque temos o direito aos recursos previstos na legislação, mas também porque temos o direito sagrado de provar nossa inocência.

Não me calarei e não me conformo com a injusta sentença que me foi imposta. Vou lutar mesmo cumprindo pena. Devo isso a todos os que acreditaram e ao meu lado lutaram nos últimos 45 anos, me apoiaram e foram solidários nesses últimos duros anos na certeza de minha inocência e na comunhão dos mesmos ideais e sonhos.
José Dirceu

Uma juventude contra a ditadura militar

União da Juventude Patriótica: jovens contra a ditadura e o imperialismo.

Por Augusto Buonicore *

Á Joel Vasconcelos dos Santos e Lincoln Bicalho Roque, heróis da juventude e do povo brasileiro

Nasce a UJP

Existe uma visão equivocada sobre a política adotada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) no auge da ditadura militar. Muitos ainda acreditam que ele, especialmente após a decretação do AI-5, tivesse abandonado sua atuação no movimento de massas para se dedicar exclusivamente à luta armada.
De fato, o PCdoB empregou parte importante de suas energias na montagem da guerrilha rural, mas jamais abandonou a perspectiva de se inserir nas lutas sociais urbanas. Foi, justamente, isso que o diferenciou da maioria das correntes revolucionárias que combatiam a ditadura militar, tornando-o numa força política expressiva – ao lado da Ação Popular (AP) – no interior movimento estudantil brasileiro. Este partido chegou a ter maioria na última diretoria clandestina da UNE (1970-1973). Particularmente no antigo Estado da Guanabara este crescimento foi mais sentido.
Neste artigo trataremos de uma das muitas das tentativas feitas pelo Partido Comunista do Brasil para se manter vinculado às massas juvenis no auge da truculência ditatorial (1969-1975). Refiro-me a experiência de construção da União da Juventude Patriótica (UJP).
Uma das pessoas indicadas pela direção do Partido para organizar essa entidade foi Myriam Ribeiro Costa, estudante da UFRJ. O PCdoB da Guanabara, afirmou ela, “destacou alguns quadros para participarem de uma Comissão Estadual Provisória, com o objetivo de construir uma agremiação revolucionária que congregasse os jovens independentes interessados e motivados em lutar contra o regime militar e pelas reivindicações populares (…). Durante l969 e no início de l970, reunimo-nos inúmeras vezes para discutir e elaborar o Programa e o Estatuto, que seriam o ponto de partida da empreitada”.
A decisão não foi fácil, pois existiram opiniões diferentes sobre como esta entidade deveria ser organizada: “quando discutíamos o Estatuto, chegamos a um impasse: a UJP deveria ser oficialmente subordinada ao PCdoB, por menção estatutária, ou ser dirigida por esse partido, sim, mas num quadro de autonomia política? Nesse ponto, solicitamos a presença do Comitê Regional. Não sendo resolvida a controvérsia, apelamos ao Comitê Central, que decidiu pela segunda alternativa (…). Carlos Danielli ajudou a por um ponto final na controvérsia: a UJP deveria ser uma organização de frente única, dirigida pelo PCdoB, sim, mas por meio da eleição democrática de seus dirigentes, e não uma espécie de Juventude Comunista, de antemão vinculada a esse partido e oficialmente subordinada às suas decisões”.
Carlos Henrique Tibiriçá – ou simplesmente Caíque – começou a se aproximar da esquerda em 1966, ficando dividido entre o PCdoB e a Ação Libertadora Nacional (ALN). Contudo, quando da decretação do AI-5, ele optou por se vincular definitivamente ao primeiro. Enquanto comunista e militante do movimento estudantil, participou ativamente do processo de construção da UJP e compôs a Comissão Estadual, ficando responsável pelo setor secundarista. Este, por sinal, foi um dos setores mais ativos daquela organização, até ser destroçado pela repressão pouco tempo depois.
Numa entrevista ao autor, Caíque esclareceu que “a criação da UJP (…) era parte de uma experiência que se desse certo na Guanabara seria paulatinamente estendida aos demais estados (…). As primeiras discussões sobre a criação da UJP que participei, foram com Jover Telles, Armando Frutuoso, Lincoln Bicalho Roque e o assistente do meu setor, que era o José Roberto Brum de Luna, todos dirigentes do Comitê Estadual, os três primeiros também do Comitê Central”.
Assim, em março de 1970, foi fundada a União da Juventude Patriótica e para se filiar a ela não precisava ser comunista ou marxista-leninista. Bastava ser antiimperialista e contra a ditadura militar. O seu estatuto afirmava que ela se constituía numa “organização revolucionária de jovens patriotas e democratas, sem distinção de raça, classes, princípios ideológicos, religiosos e filosóficos”. O seu objetivo era “mobilizar, unir e organizar os jovens cariocas na luta pela derrubada da ditadura militar que infelicita nossa pátria, pela libertação do Brasil do jugo do imperialismo norte-americano e pela extinção do latifúndio; pela conquista de um governo verdadeiramente democrático e popular que assegure à juventude e a todo o povo brasileiro um regime de liberdade, progresso, cultura e um mínimo de vida digna”.

A entidade se organizava através de núcleos dos quais participavam entre 3 e 5 jovens. Estes núcleos se estruturavam clandestinamente por local de trabalho, setor profissional, de estudo, de moradia, esportivo e de diversão. Seus membros usavam “nomes de guerra” e os diversos núcleos não podiam ter relações horizontais entre si. Era uma estranha mescla de entidade de massas que ao mesmo tempo era clandestina. Uma fórmula que já sinalizava para dificuldades futuras.
Da primeira direção da UJP participavam: Lincoln Bicalho Roque (Mário), como secretário político; Myriam Ribeiro Costa (Mariana), como secretária de organização e de imprensa; Carlos Henrique Tibiriça (Artur), responsável pelo setor secundarista. Havia ainda duas outras pessoas cuja identidade ainda não se tem certeza. Lincoln Bicalho (foto ao lado), segundo Caíque, “era um dirigente preparado, formulador, organizador, sempre parceiro de todos os militantes. Muito querido por todos os que o conheceram. Sua atuação foi fundamental para que a UJP se consolidasse. Atuava com desprendimento e alegria”. Ele tinha ingressado no PCdoB após o golpe de 1964 vindo de uma importante dissidência do PCB na Guanabara.

Veja a cena do documentário de Silvio Tendler que aparece uma cena com Lincoln Bicalho Roque e sua companheira Tânia:

Uma juventude contra a ditadura e o imperialismo.

A opção pela luta armada – especialmente a guerra popular prolongada – estava presente em todos os documentos da entidade. Afinal seus principais dirigentes eram do PCdoB. O programa, por exemplo, afirmava: a UJP visa “unir e organizar em suas fileiras, os jovens patriotas da Guanabara (…) para que possamos desempenhar de modo unificado nosso papel (…) nos preparativos para o desencadeamento da guerra do povo”. A mesma conclamação era feita em seus boletins. A existência da UJP contribuiu muito no processo de recrutamento de jovens cariocas para a Guerrilha do Araguaia, iniciada em abril de 1972. Cerca de duas dezenas deles lutaram e morreram na guerrilha. Isso explica a violenta repressão que se abateu sobre aquela organização revolucionária juvenil.
Um das primeiras medidas da nova direção foi lançar um boletim intitulado simplesmente UJP. “A tarefa de editar o jornal da UJP, declarou Myriam, era minha. Lincoln se responsabilizava pelo editorial e ainda escrevia outras matérias. Também era minha função produzir a seção que relatava as lutas do povo brasileiro desde o período colonial (…). O objetivo dessa coluna era, com tais exemplos, despertar uma identidade histórica nacional e estimular a luta revolucionária. (…) Eu admirava (o Lincoln) por sua rapidez em escrever. Como éramos responsáveis pelo jornal, às vezes íamos à Biblioteca do Real Gabinete Português, para discutirmos um pouco mais sobre as matérias. Não raro, ali mesmo ele redigia o editorial, num arranque só. Geralmente, escrevia à mão, no primeiro pedaço de papel que encontrava”.
Na “Semana da Pátria” de 1970, no ápice do ufanismo ditatorial, os seus militantes distribuíram milhares de manifestos ao povo brasileiro. Neles se afirmava: “A Ditadura entreguista nunca defenderá a Pátria brasileira. Nossa independência precisa ser conquistada pelo povo. É preciso que o povo brasileiro se una e lute corajosamente, inclusive de armas nas mãos. Só assim será derrubada a ditadura assassina e traidora de Médici. Só assim conseguiremos um governo popular e verdadeiramente revolucionário”. Em março de 1971, a UJP lançou o manifesto: “7 anos de fascismo – Abaixo a ditadura. O povo vencerá!”. Novamente conclamava a necessidade de preparação da guerra popular contra o regime militar.
Ser pego com esses panfletos poderia custar muito caro para os seus jovens militantes. Entre outubro e novembro de 1970 caiu nas garras da repressão o núcleo da Faculdade de Direito da UFRJ. Mas, o pior ainda estaria por vir.

No dia 15 de março de 1971, o líder secundarista negro Joel Vasconcelos dos Santos (foto ao lado) e um companheiro foram presos próximo do morro do Borél. Os dois passaram a ser torturados. Na ocasião, Joel carregava inúmeros documentos das organizações clandestinas nas quais militava: a UJP e o PCdoB O amigo testemunhou que ele foi seviciado durante todo tempo que estiveram juntos na Polícia do Exército. Morreu destroçado nas garras dos seus algozes sem dizer uma única palavra, pois ninguém “caiu” devido a sua prisão. “Cair” era a gíria que usavam para referir-se a prisão de militantes.
Joel era aluno da Escola Técnica do Rio de Janeiro e um dos principais organizadores da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas (AMES) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Os órgãos de repressão ainda tentaram negar sua detenção e, depois, disseram que já havia sido libertado. Desde então nunca mais foi visto. Ele foi o primeiro militante do PCdoB a ser assassinado durante a ditadura militar brasileira.
Na mesma época, a polícia invadiu a Escola Técnica Federal de Química e prendeu a estudante Elisabeta Bonetti. Ela, como de praxe, foi muito torturada. O fato de ter nacionalidade italiana quase causou um incidente internacional. Depois de uma negociação entre os dois governos, a jovem comunista foi expulsa do país. Como Joel, a garota Elisabeta era membro da direção do Comitê Secundarista do PCdoB e da União da Juventude Patriótica.

Em meados do ano anterior, a UJP tinha tido uma importante participação na campanha da contra a “farsa eleitoral”. Em 1970 o total de votos nulos e brancos, defendidos pela esquerda, bateu um recorde histórico, atingindo 30,3% dos eleitores. Some-se a esses os 22,6% que resolveram se abster da votação. Isso mostrava o descontentamento, ainda que difuso, com o regime militar.
A UJP destacou-se por sua capacidade de agitação e propaganda: “Realizávamos grandes panfletagens. Boletins eram amplamente divulgados, pichações eram feitas em todos os bairros, e a maioria dos banheiros de restaurantes e ônibus da cidade tinham inscrições a Pilot da UJP. Organizamos desta forma, centenas de jovens muitos deles não militantes do PCdoB. A ‘chuva de panfletos’ era realizada na mesma hora por pares de militantes que recebiam na hora a localização da janela onde deveriam jogar os volantes, a justificativa do que faziam no prédio em caso de repressão”, concluiu Caíque. Um outro militante secundarista, José Roberto Áreas, descreveu assim a sua atuação: “os militantes tinham um pincel atômico e escreviam em todas as portas ou paredes dos banheiros públicos, assinando UJP em um triângulo. Em cada ponta do triângulo uma letra. Nos bancos dos ônibus também era comum escrever nas costas do banco da frente”.

Em junho de 1970 os estudantes, comandados pela UNE e a UBES clandestinas, realizaram uma manifestação contra a invasão do Camboja pelos EUA e conclamando o voto nulo. Quem falou pelas duas entidades foram, respectivamente, Ronald Rocha (foto ao lado) e o Luis Artur Turíbio (Turiba) – dois dirigentes estudantis do PCdoB. Um dos participantes descreveu esse ato: “Queimamos uma bandeira americana, levada por nós, secundaristas, caminhamos com a bandeira vermelha e azul com a estrela dourada dos vietcongs e enforcamos um boneco do Tio Sam”. Grande parte dos manifestantes era ligada a UJP.
Segundo os órgãos de repressão existiam mais de 15 núcleos da UJP nas escolas secundárias da Guanabara. Para Caíque, responsável por essa frente, o número de núcleos era bem maior. Sobre a influência da entidade, nos confidenciou Myriam Ribeiro, “de março de l970, quando foi fundada oficialmente, a setembro de l972, a UJP cresceu vertiginosamente, chegando a ter cerca de 600 membros. Afirmo, com certeza, essa data e esse número de militantes porque, em nosso último ‘ponto’, eu e Lincoln fizemos um balanço geral da situação”. Números realmente espantosos, tendo em vista que vivíamos em meio a uma ditadura militar fascista.
Um dos motivos deste crescimento é que as organizações de esquerda, como a Dissidência Comunista da Guanabara, que tinham força junto aos estudantes, acabaram se afastando do movimento para dedicarem-se quase que exclusivamente à atuação guerrilheira. No início dos anos 1970, quando a UJP ainda se formava, a grande parte das jovens lideranças que partiram prematuramente para a luta armada já estava presa, exilada ou morta. Criou-se, assim, uma vazio político que foi rapidamente preenchido pela combativa juventude criada pelo PCdoB.

Guerrilha, repressão, morte … e esperança.

Após o início da Guerrilha do Araguaia, em abril de 1972, teve início a grande repressão contra o PCdoB nas cidades. No Rio de Janeiro as prisões começaram entre maio e junho daquele mesmo ano. Os primeiros a cair foram os combativos secundaristas. Caíque (Foto ao lado), responsável pelo setor, afirmou: “Só fui saber da extensão das quedas quando já estava no DOI-CODI da Rua Barão de Mesquita no Rio num ambiente de torturas generalizadas”. Do Comitê Secundarista foram presos, além de Caíque, Tasso de Lara Donato Cristina Capistrano (filha de David Capistrano), Iracema Soares, Ubirajara Soares, Luís Artur Turíbio (o Turiba da UBES), Fernando Leite Costa. O principal dirigente comunista preso na ocasião foi José Roberto Brum de Luna, que era membro do Comitê Regional e dava assistência ao comitê secundarista do PCdoB.
Na rede também cairia o secundarista José Roberto Áreas: “uma companheira não resistiu as tortura e levou a repressão no Colégio Estadual Paulo de Frontin onde eu estudava. Ao entrar na escola fui abordado por vários policiais a paisano, me chamando pelo codinome de João. A partir daí fui seqüestrado e me levaram para um carro. Colocaram um capuz na minha cabeça e me fizeram deitar no chão do carro em frente os bancos detrás (…). Começaram a rodar, e conversando entre eles aonde deveriam despachar o meu corpo. (…) A partir dai foi o tempo todo numa roda e levando porrada por todos os lados sem saber de onde vinha porque estava de capuz (…). Depois me levaram para a geladeira, que era um frigorífico e ficava fechado com frio e escuro e na câmara de som, onde se ouvia um som com várias intensidades, que penetrava nos poros como se fosse agulha espetando, ou nos colocavam numa sala, com holofotes do exército aceso em cima de gente fazendo um calor violento (…). Toda hora ouvia a chegada de mais gente, gritos de tortura”. José Roberto calculou que mais de cem pessoas estavam presas ali. Alguns afirmam que, no total, foram 300 os militantes comunistas encarcerados naquela ocasião. A maior operação policial realizada contra o PCdoB nas cidades até então.
Num primeiro momento as estruturas do Comitê Universitário e do Comitê Regional do PCdoB não foram muito atingidas. No entanto, as coisas se complicaram ao longo do ano. A repressão estava decidida a eliminar o PCdoB do Rio de Janeiro, considerado um dos principais celeiros de quadros para a Guerrilha do Araguaia. No final de agosto ocorreu a prisão de Ronald Rocha, dirigente do PCdoB e diretor da UNE. A onda repressiva, finalmente, chegou aos universitários.
Entre dezembro de 1972 e março de 1973 quatro importantes membros do Comitê Central ligados ao Rio de Janeiro foram presos, torturados e assassinados: Carlos Danielli, Lincoln Cordeiro Oest, Luiz Guilhardini e Lincoln Bicalho Roque. O assassinato de Lincoln Bicalho representou um duro golpe contra a UJP. Os principais núcleos agora estavam desorganizados e seus dirigentes presos ou foragidos. Apesar das pesadas baixas, a UJP continuou existindo e resistindo.
Uirtz Sérvulo, por exemplo, ingressou na UJP em 1972 e escapou da onda de prisões. Ele era ligado ao setor da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro e, por segurança, não tinha qualquer contato com o setor estudantil. Entre suas atividades estava a divulgação da Guerrilha do Araguaia. Segundo ele, a UJP ainda se envolveu numa campanha pelo voto nulo nas eleições de 1974. Possivelmente não tenha chegado aos seus quadros a nova diretiva do PCdoB que era votar na oposição à ditadura, ou seja apoiar o MDB contra a ARENA.
Outra ex-militante da UJP, Dilcéia Quintela, ingressou na organização no início de 1974 e atuava em Nova Iguaçu, baixada fluminense. Em 1975 ela e Uirtz foram presos, na nova queda que atingiu o PCdoB no Rio de Janeiro. “Provavelmente, disse-nos ele, o nosso setor foi o último a ser aprisionado pela ditadura, em maio de 1975. Não conheço registro de ações da UJP após estas quedas”. De fato, as novas quedas do Comitê Regional do Rio de Janeiro em 1975, que levaram a morte Armando Frutuoso e as prisões de Jover Telles e José Maria Cavalcante, impuseram obstáculos instransponíveis à existência de uma organização como a UJP.
Durante a sua existência mais de uma centena de jovens militantes foi presa e seviciada nas delegacias e quartéis. Lincoln e Joel morreram sob torturas e outras dezenas tombaram nas selvas do Araguaia. Eles não conseguiram derrubar a ditadura e construir um poder popular como almejavam, mas nos deixaram uma semente. Como afirmou um de seus antigos militantes: “A UJP foi um pólo de resistência à ditadura. Nas condições adversas para a luta popular, contribuiu para manter acesa a chama da revolução no Rio de Janeiro”. Viva a União da Juventude Patriótica.

Referências:

§ Agradeço os depoimentos dados por Carlos Henrique Tibiriçá (o Caíque), Myriam Costa de Oliveira, ex-dirigentes da UJP; Ronald Rocha; José Carlos Áreas; Uirtz Sérvulo; Dilcéia Quintela; Nelson Nahon e Dyneas Aguiar.

§ Estatuto, Programa, jornais e processos contra membros da UJP encontrados na coleção Brasil Nunca Mais que se encontra depositada no arquivo Edgar Leuenroth/Unicamp.

* Augusto Buonicore é historiador e secretário geral da Fundação Maurício Grabois.

Dilma Presidente: um novo tempo para lutas e conquistas

A eleição de Dilma Roussef, a primeira mulher a ocupar a Presidência da República no Brasil, renova um novo tempo de esperanças e possibilidades de conquistas para o nosso país e em especial para a juventude. Avançamos muito durante os quase 08 anos de Governo Lula. Vista antes como um problema, a juventude ganhou visibilidade com programas e ações do Governo Federal, conquistou direitos importantes e hoje pode efetivamente se transformar em um agente protagonista desse novo projeto de desenvolvimento em curso no Brasil.

Passadas as merecidas comemorações por essa importante vitória popular, nossa tarefa agora é apresentar para a próxima Presidente, para o Congresso Nacional e para os movimentos sociais, novas bandeiras e propostas, um conjunto ousado de medidas para aprofundarmos as transformações iniciadas com o Governo Lula.

A vitória de Dilma é o êxito de um projeto que congrega forças progressistas em torno de um programa que combina soberania nacional, desenvolvimento econômico, distribuição de renda, inclusão social e liberdades políticas. Dilma contará no Congresso com uma maioria parlamentar consolidada, tanto na Câmara, quanto no Senado. Tem o apoio também da maioria dos Governadores eleitos, e a expressiva votação obtida, mais de 56 milhões de votos, lhe confere grande autoridade e força política diante de todo o povo brasileiro.

É portanto um cenário fértil para obtermos mais avanços e conquistas. Desperdiçar essa oportunidade seria uma grande derrota para todo o povo. É ai que entra o papel da juventude e dos movimentos sociais: temos que apresentar um conjunto de novas bandeiras e propostas, uma plataforma ousada de políticas públicas que reconheça os mais de 50 milhões de jovens brasileiros como parte fundamental da realização de um país justo, soberano e democrático.

O ano de 2011 deve ser um período de intensas mobilizações juvenis. Esse é o principal caminho para obtermos conquistas importantes. Logo no início de janeiro a Cidade Maravilhosa receberá milhares de estudantes de todo o Brasil. É o movimento estudantil mobilizado para participar do 13º Conselho Nacional de Entidades de Base da UNE, do 1º Encontro de Grêmios da UBES e da 7ª Bienal de Cultura da União Nacional dos Estudantes. De forma muito acertada, as entidades estudantis convocam os estudantes brasileiros e suas entidades de base para já no início do novo governo pautar bandeiras e reivindicações para esse novo período. É também uma grande oportunidade para fortalecer a luta dos estudantes pela aplicação de 50% do Fundo Social do Pré-Sal em educação.

Devemos também pautar entre as organizações juvenis propostas relacionadas as oportunidades que a realização da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas em 2016, abrem para a juventude. Precisamos também aprofundar o debate sobre a relação entre educação e o trabalho, além de construir medidas que garantam o trabalho decente e qualificado para a juventude. A luta pela redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais está também entre as prioridades das pautas juvenis.

O tema do meio ambiente e da cultura também precisa ganhar relevo na agenda política. O desenvolvimento do país, em seu conceito mais abrangente e progressista, só ocorre efetivamente quando acompanhado da valorização do trabalho e na melhoria de suas condições, da qualificação e do fortalecimento da educação pública, da distribuição de renda, do enriquecimento cultural e político de toda a sociedade e da utilização sustentável dos recursos naturais.

Temos também uma grande oportunidade para fortalecer e ampliar a participação juvenil. A realização da 2ª Conferência Nacional de Juventude, já convocada pelo presidente Lula, deve servir para consolidar esse canal de participação e efetivamente transformar em políticas de Estado as Políticas Públicas de Juventude. Reivindicamos da Presidente Dilma que eleve a política de juventude do Governo Federal ao centro das decisões e trate a pauta juvenil como um assunto estratégico para nosso país.

Esse é apenas o começo, trazemos em nossas mãos a vontade desmedida de lutar e de construir a nossa história. Com uma mulher guerreira na Presidência do nosso país, nossa grande luta é transformar todas as possibilidades de avanços em realidade.

Juventude, eleições 2010 e o projeto de desenvolvimento: um impulso para as transformações no Brasil

*Publico hoje um artigo do Presidente da UJS, Marcelo Gavião. Com isso, inicío uma série de publicações de artigos sobre os desafios para juventude nas eleições de 2010. O objetivo dessa série é contribuir para o debate do Plano de Governo para juventude de nossa candidata, Dilma Roussef. Participe e dê a sua opinião.

À medida que as eleições se aproximam, acaloram-se os debates sobre candidaturas e o papel dos agentes políticos em campo na batalha.

Muito se fala, não sem razão, na necessidade de fazer as devidas comparações entre o Brasil do presente, cheio de esperanças e possibilidades a serem concretizadas, e o da década passada – um país quebrado, refém de políticas antinacionais e antissociais, que havia negociado sua soberania e colocado seus destinos em mãos alheias. Tal comparação será, sem dúvida, um dos elementos-chave do debate nacional, mas não o único.

No último período, diversos debates têm jogado luz sobre uma demanda evidente: o papel inegável do enorme contingente populacional – e eleitoral – que figura na faixa entre 16 e 24 anos. Neste universo temos 25 milhões de jovens aptos a votar, segundo o TSE.

Já se considerarmos uma faixa mais larga, a dos que figuram entre 15 e 29 anos, teremos nada menos que 52 milhões de brasileiros e brasileiras, com necessidades próprias e um olhar mais voltado para o futuro e menos suscetível a comparações com o período anterior, pois não têm na memória o descalabro dos governos de FHC. Só pra efeito de comparação, uma parte significativa dos jovens que exercerão seu direito de votar pela primeira vez agora em 2010, tinha apenas 8 anos de idade quando Lula foi eleito em 2002 e, por conta disso, não tem lembranças do atraso que foi para o Brasil, em especial para a juventude, a experiência do governo do PSDB.

Por conta disso, o desafio dos setores avançados que atuam na área é transmitir uma mensagem a partir de bandeiras políticas concretas, capaz de conquistar essa parcela. Portanto, esmerar-se em encontrar a exata medida entre valorizar o que foi feito e sinalizar as conquistas que virão com a eleição de um governo que siga e aprofunde o projeto de mudanças iniciadas no Brasil.

A expressão “continuidade” deve sempre estar ligada à necessidade de avançar, de olhar para frente, entendendo tudo que foi feito até aqui como um “alicerce” que será fundamental para que possamos dar passos mais largos e encontrar respostas para os graves problemas sociais que atingem especialmente a parcela jovem da população.

Dois eixos de atuação – embora não eliminem os demais – ganham primazia, nos dias de hoje, quando debatemos as políticas públicas de juventude: a educação e o trabalho, compreendidos em simbiose.

Mesmo com todos os avanços conquistados nos anos de governo Lula, o desemprego – ou a luta contra o subemprego – ainda continua sendo uma das principais preocupações da juventude.

Vivemos no tempo em que o acesso ao trabalho tem cada vez mais relação com a necessidade da juventude por autonomia e emancipação e isso faz com que hoje uma parte significativa da juventude no Brasil não se reconheça como estudantil e sim como trabalhadora. Nessa lógica, os jovens gastam mais tempo preocupados com o acesso imediato ao mercado de trabalho do que com a necessidade de dar continuidade aos estudos. Tudo isso diante de um quadro de altas taxas de desemprego juvenil e da precariedade das vagas disponíveis a esta parcela.

Essa realidade tem deixado o debate sobre as políticas públicas de juventude diante de duas opções aparentemente antagônicas no que se refere ao trabalho: 1) preparar o jovem para fazer a transição, procurando facilitar sua contratação e oferecer-lhe melhores oportunidades de trabalho cada vez mais cedo; 2) prolongar sua escolarização, o que segundo algumas propostas existentes – como a criação de uma “previdência juvenil” – significaria redundar em desestimular/retardar sua entrada no mercado trabalho.

Aqui no Brasil, em um primeiro momento, prevaleceram políticas cujo enfoque estava na preparação para o mercado de trabalho. Centradas em cursos de qualificação profissional e no incentivo à contratação de jovens desvinculado da escola, estas experiência marcaram principalmente as décadas passadas. Contudo, a eficácia da formação profissional, quando desvinculada da escola, sempre foi questionável, tendo esse modelo bons resultados sempre quando calçados em períodos de crescimento econômico. Momento em que o desemprego juvenil é minorado.

Num segundo momento, já durante o governo Lula, passamos a experimentar outras saídas como o Programa Nacional de Inclusão de Jovens – Projovem. Nele o governo federal buscou combinar a preparação para o mundo do trabalho e a elevação da escolaridade, delimitado inicialmente para o público entre 18 e 24 anos que não havia completado o ensino fundamental. Embora a proposta seja boa, ela tende a reforçar a perspectiva de simplesmente adiar a entrada no mercado de trabalho, caso não seja acompanhada de um conjunto de outras medidas, como a elevação da qualidade do ensino fundamental através da sua completa reformulação.

Ao longo dos anos, o ensino médio brasileiro foi perdendo seu papel e se transformando em um período escolar que, por um lado, não prepara os jovens para ter acesso de modo qualificado ao mercado de trabalho e, por outro, não apresenta a perspectiva do acesso ao ensino superior. Fruto dessa realidade, torna-se necessário um debate profundo sobre qual o papel que deverá ter o ensino médio na conjuntura atual.

Nesse sentido é bom ressaltar as iniciativas na retomada da construção de um modelo de educação profissional ligada ao ensino médio. Ao contrário das medidas adotadas pelo PSDB nos anos 90 quando, através do Decreto 2208/97, desvinculou a educação técnica da educação propedêutica, o atual governo retomou para as mãos do Estado a responsabilidade pela reconstrução do ensino técnico, enxergando nele um pilar importante para o desenvolvimento do país. Essa iniciativa rendeu ao Brasil chegar hoje a 214 escolas espalhadas por todos os cantos do território, devendo esse número crescer significativamente até o fim no ano.

Um outro ponto importante a ser abordado sobre o ensino médio é a situação do magistério. O salário do professor deve conferir a ele o valor que a sociedade lhe dá. Não será possível reformular o ensino médio sem atrair para ele os melhores profissionais – e não iremos atrair os melhores profissionais sem bons salários. E foi para dar resposta a esse problema que tivemos um avanço no último período com a criação do Piso Nacional Salarial do professor, que ainda não foi implementado e sofre uma forte resistência principalmente de governadores ligados ao PSDB.

Aqui pode estar um dos caminhos a seguir na perspectiva de encontrar mais harmonia na relação entre educação e trabalho. Essa fase de transição entre a saída da escola e a entrada no mercado de trabalho são dois dos processos fundamentais para a própria caracterização da juventude. Devem, portanto, andar lado a lado. Dessa forma, o candidato que pensar diferente disso estará em descompasso com os anseios e necessidades da juventude.

Um país que busca a consolidação de um novo projeto nacional de desenvolvimento deve enfrentar esse debate buscando desfazer essa aparente dicotomia. Devemos, sim, combinar os dois enfoques: incorporar os jovens ao mercado de trabalho ao passo em que os mesmos dão continuidade aos estudos.

Marcelo Gavião é presidente nacional da UJS – União da Juventude Socialista

UJS bombando na luta pelo Pré-sal!

A militância da UJS bombou nos quatro cantos do país construindo uma grande Jornada Nacional de Lutas em defesa de um novo marco regulatório para o Pré-sal, com destaque para a bandeira de 50% do Fundo Social para a educação. Veja o video que ficou a tarde na capa do portal G1.