Injusta sentença

Reproduzo aqui nota divulgada hoje por José Dirceu. A decisão que o STF toma hoje, de condená-lo a 10 anos e 10 meses de prisão, está longe de ser inquestionável, na realidade para os que defendem a democracia em sua plenitude é uma decisão que fere preceitos constitucinais e abre graves precedentes. A José Dirceu, a solidariedade de toda a militância da União da Juventude Socialista nesse momento de nova perseguição política, amplamente comemorada pelas viuvas derrotadas na ditadura militar e que até hoje não engolem a vitória de Lula em 2002.

Injusta sentença

Dediquei minha vida ao Brasil, a luta pela democracia e ao PT. Na ditadura, quando nos opusemos colocando em risco a própria vida, fui preso e condenado. Banido do país, tive minha nacionalidade cassada, mas continuei lutando e voltei ao país clandestinamente para manter nossa luta. Reconquistada a democracia, nunca fui investigado ou processado. Entrei e saí do governo sem patrimônio. Nunca pratiquei nenhum ato ilícito ou ilegal como dirigente do PT, parlamentar ou ministro de Estado. Fui cassado pela Câmara dos Deputado e, agora, condenado pelo Supremo Tribunal Federal sem provas porque sou inocente.

A pena de 10 anos e 10 meses que a suprema corte me impôs só agrava a infâmia e a ignomínia de todo esse processo, que recorreu a recursos jurídicos que violam abertamente nossa Constituição e o Estado Democrático de Direito, como a teoria do domínio do fato, a condenação sem ato de ofício, o desprezo à presunção de inocência e o abandono de jurisprudência que beneficia os réus.

Um julgamento realizado sob a pressão da mídia e marcado para coincidir com o período eleitoral na vã esperança de derrotar o PT e seus candidatos. Um julgamento que ainda não acabou. Não só porque temos o direito aos recursos previstos na legislação, mas também porque temos o direito sagrado de provar nossa inocência.

Não me calarei e não me conformo com a injusta sentença que me foi imposta. Vou lutar mesmo cumprindo pena. Devo isso a todos os que acreditaram e ao meu lado lutaram nos últimos 45 anos, me apoiaram e foram solidários nesses últimos duros anos na certeza de minha inocência e na comunhão dos mesmos ideais e sonhos.
José Dirceu

Uma juventude contra a ditadura militar

União da Juventude Patriótica: jovens contra a ditadura e o imperialismo.

Por Augusto Buonicore *

Á Joel Vasconcelos dos Santos e Lincoln Bicalho Roque, heróis da juventude e do povo brasileiro

Nasce a UJP

Existe uma visão equivocada sobre a política adotada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) no auge da ditadura militar. Muitos ainda acreditam que ele, especialmente após a decretação do AI-5, tivesse abandonado sua atuação no movimento de massas para se dedicar exclusivamente à luta armada.
De fato, o PCdoB empregou parte importante de suas energias na montagem da guerrilha rural, mas jamais abandonou a perspectiva de se inserir nas lutas sociais urbanas. Foi, justamente, isso que o diferenciou da maioria das correntes revolucionárias que combatiam a ditadura militar, tornando-o numa força política expressiva – ao lado da Ação Popular (AP) – no interior movimento estudantil brasileiro. Este partido chegou a ter maioria na última diretoria clandestina da UNE (1970-1973). Particularmente no antigo Estado da Guanabara este crescimento foi mais sentido.
Neste artigo trataremos de uma das muitas das tentativas feitas pelo Partido Comunista do Brasil para se manter vinculado às massas juvenis no auge da truculência ditatorial (1969-1975). Refiro-me a experiência de construção da União da Juventude Patriótica (UJP).
Uma das pessoas indicadas pela direção do Partido para organizar essa entidade foi Myriam Ribeiro Costa, estudante da UFRJ. O PCdoB da Guanabara, afirmou ela, “destacou alguns quadros para participarem de uma Comissão Estadual Provisória, com o objetivo de construir uma agremiação revolucionária que congregasse os jovens independentes interessados e motivados em lutar contra o regime militar e pelas reivindicações populares (…). Durante l969 e no início de l970, reunimo-nos inúmeras vezes para discutir e elaborar o Programa e o Estatuto, que seriam o ponto de partida da empreitada”.
A decisão não foi fácil, pois existiram opiniões diferentes sobre como esta entidade deveria ser organizada: “quando discutíamos o Estatuto, chegamos a um impasse: a UJP deveria ser oficialmente subordinada ao PCdoB, por menção estatutária, ou ser dirigida por esse partido, sim, mas num quadro de autonomia política? Nesse ponto, solicitamos a presença do Comitê Regional. Não sendo resolvida a controvérsia, apelamos ao Comitê Central, que decidiu pela segunda alternativa (…). Carlos Danielli ajudou a por um ponto final na controvérsia: a UJP deveria ser uma organização de frente única, dirigida pelo PCdoB, sim, mas por meio da eleição democrática de seus dirigentes, e não uma espécie de Juventude Comunista, de antemão vinculada a esse partido e oficialmente subordinada às suas decisões”.
Carlos Henrique Tibiriçá – ou simplesmente Caíque – começou a se aproximar da esquerda em 1966, ficando dividido entre o PCdoB e a Ação Libertadora Nacional (ALN). Contudo, quando da decretação do AI-5, ele optou por se vincular definitivamente ao primeiro. Enquanto comunista e militante do movimento estudantil, participou ativamente do processo de construção da UJP e compôs a Comissão Estadual, ficando responsável pelo setor secundarista. Este, por sinal, foi um dos setores mais ativos daquela organização, até ser destroçado pela repressão pouco tempo depois.
Numa entrevista ao autor, Caíque esclareceu que “a criação da UJP (…) era parte de uma experiência que se desse certo na Guanabara seria paulatinamente estendida aos demais estados (…). As primeiras discussões sobre a criação da UJP que participei, foram com Jover Telles, Armando Frutuoso, Lincoln Bicalho Roque e o assistente do meu setor, que era o José Roberto Brum de Luna, todos dirigentes do Comitê Estadual, os três primeiros também do Comitê Central”.
Assim, em março de 1970, foi fundada a União da Juventude Patriótica e para se filiar a ela não precisava ser comunista ou marxista-leninista. Bastava ser antiimperialista e contra a ditadura militar. O seu estatuto afirmava que ela se constituía numa “organização revolucionária de jovens patriotas e democratas, sem distinção de raça, classes, princípios ideológicos, religiosos e filosóficos”. O seu objetivo era “mobilizar, unir e organizar os jovens cariocas na luta pela derrubada da ditadura militar que infelicita nossa pátria, pela libertação do Brasil do jugo do imperialismo norte-americano e pela extinção do latifúndio; pela conquista de um governo verdadeiramente democrático e popular que assegure à juventude e a todo o povo brasileiro um regime de liberdade, progresso, cultura e um mínimo de vida digna”.

A entidade se organizava através de núcleos dos quais participavam entre 3 e 5 jovens. Estes núcleos se estruturavam clandestinamente por local de trabalho, setor profissional, de estudo, de moradia, esportivo e de diversão. Seus membros usavam “nomes de guerra” e os diversos núcleos não podiam ter relações horizontais entre si. Era uma estranha mescla de entidade de massas que ao mesmo tempo era clandestina. Uma fórmula que já sinalizava para dificuldades futuras.
Da primeira direção da UJP participavam: Lincoln Bicalho Roque (Mário), como secretário político; Myriam Ribeiro Costa (Mariana), como secretária de organização e de imprensa; Carlos Henrique Tibiriça (Artur), responsável pelo setor secundarista. Havia ainda duas outras pessoas cuja identidade ainda não se tem certeza. Lincoln Bicalho (foto ao lado), segundo Caíque, “era um dirigente preparado, formulador, organizador, sempre parceiro de todos os militantes. Muito querido por todos os que o conheceram. Sua atuação foi fundamental para que a UJP se consolidasse. Atuava com desprendimento e alegria”. Ele tinha ingressado no PCdoB após o golpe de 1964 vindo de uma importante dissidência do PCB na Guanabara.

Veja a cena do documentário de Silvio Tendler que aparece uma cena com Lincoln Bicalho Roque e sua companheira Tânia:

Uma juventude contra a ditadura e o imperialismo.

A opção pela luta armada – especialmente a guerra popular prolongada – estava presente em todos os documentos da entidade. Afinal seus principais dirigentes eram do PCdoB. O programa, por exemplo, afirmava: a UJP visa “unir e organizar em suas fileiras, os jovens patriotas da Guanabara (…) para que possamos desempenhar de modo unificado nosso papel (…) nos preparativos para o desencadeamento da guerra do povo”. A mesma conclamação era feita em seus boletins. A existência da UJP contribuiu muito no processo de recrutamento de jovens cariocas para a Guerrilha do Araguaia, iniciada em abril de 1972. Cerca de duas dezenas deles lutaram e morreram na guerrilha. Isso explica a violenta repressão que se abateu sobre aquela organização revolucionária juvenil.
Um das primeiras medidas da nova direção foi lançar um boletim intitulado simplesmente UJP. “A tarefa de editar o jornal da UJP, declarou Myriam, era minha. Lincoln se responsabilizava pelo editorial e ainda escrevia outras matérias. Também era minha função produzir a seção que relatava as lutas do povo brasileiro desde o período colonial (…). O objetivo dessa coluna era, com tais exemplos, despertar uma identidade histórica nacional e estimular a luta revolucionária. (…) Eu admirava (o Lincoln) por sua rapidez em escrever. Como éramos responsáveis pelo jornal, às vezes íamos à Biblioteca do Real Gabinete Português, para discutirmos um pouco mais sobre as matérias. Não raro, ali mesmo ele redigia o editorial, num arranque só. Geralmente, escrevia à mão, no primeiro pedaço de papel que encontrava”.
Na “Semana da Pátria” de 1970, no ápice do ufanismo ditatorial, os seus militantes distribuíram milhares de manifestos ao povo brasileiro. Neles se afirmava: “A Ditadura entreguista nunca defenderá a Pátria brasileira. Nossa independência precisa ser conquistada pelo povo. É preciso que o povo brasileiro se una e lute corajosamente, inclusive de armas nas mãos. Só assim será derrubada a ditadura assassina e traidora de Médici. Só assim conseguiremos um governo popular e verdadeiramente revolucionário”. Em março de 1971, a UJP lançou o manifesto: “7 anos de fascismo – Abaixo a ditadura. O povo vencerá!”. Novamente conclamava a necessidade de preparação da guerra popular contra o regime militar.
Ser pego com esses panfletos poderia custar muito caro para os seus jovens militantes. Entre outubro e novembro de 1970 caiu nas garras da repressão o núcleo da Faculdade de Direito da UFRJ. Mas, o pior ainda estaria por vir.

No dia 15 de março de 1971, o líder secundarista negro Joel Vasconcelos dos Santos (foto ao lado) e um companheiro foram presos próximo do morro do Borél. Os dois passaram a ser torturados. Na ocasião, Joel carregava inúmeros documentos das organizações clandestinas nas quais militava: a UJP e o PCdoB O amigo testemunhou que ele foi seviciado durante todo tempo que estiveram juntos na Polícia do Exército. Morreu destroçado nas garras dos seus algozes sem dizer uma única palavra, pois ninguém “caiu” devido a sua prisão. “Cair” era a gíria que usavam para referir-se a prisão de militantes.
Joel era aluno da Escola Técnica do Rio de Janeiro e um dos principais organizadores da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas (AMES) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Os órgãos de repressão ainda tentaram negar sua detenção e, depois, disseram que já havia sido libertado. Desde então nunca mais foi visto. Ele foi o primeiro militante do PCdoB a ser assassinado durante a ditadura militar brasileira.
Na mesma época, a polícia invadiu a Escola Técnica Federal de Química e prendeu a estudante Elisabeta Bonetti. Ela, como de praxe, foi muito torturada. O fato de ter nacionalidade italiana quase causou um incidente internacional. Depois de uma negociação entre os dois governos, a jovem comunista foi expulsa do país. Como Joel, a garota Elisabeta era membro da direção do Comitê Secundarista do PCdoB e da União da Juventude Patriótica.

Em meados do ano anterior, a UJP tinha tido uma importante participação na campanha da contra a “farsa eleitoral”. Em 1970 o total de votos nulos e brancos, defendidos pela esquerda, bateu um recorde histórico, atingindo 30,3% dos eleitores. Some-se a esses os 22,6% que resolveram se abster da votação. Isso mostrava o descontentamento, ainda que difuso, com o regime militar.
A UJP destacou-se por sua capacidade de agitação e propaganda: “Realizávamos grandes panfletagens. Boletins eram amplamente divulgados, pichações eram feitas em todos os bairros, e a maioria dos banheiros de restaurantes e ônibus da cidade tinham inscrições a Pilot da UJP. Organizamos desta forma, centenas de jovens muitos deles não militantes do PCdoB. A ‘chuva de panfletos’ era realizada na mesma hora por pares de militantes que recebiam na hora a localização da janela onde deveriam jogar os volantes, a justificativa do que faziam no prédio em caso de repressão”, concluiu Caíque. Um outro militante secundarista, José Roberto Áreas, descreveu assim a sua atuação: “os militantes tinham um pincel atômico e escreviam em todas as portas ou paredes dos banheiros públicos, assinando UJP em um triângulo. Em cada ponta do triângulo uma letra. Nos bancos dos ônibus também era comum escrever nas costas do banco da frente”.

Em junho de 1970 os estudantes, comandados pela UNE e a UBES clandestinas, realizaram uma manifestação contra a invasão do Camboja pelos EUA e conclamando o voto nulo. Quem falou pelas duas entidades foram, respectivamente, Ronald Rocha (foto ao lado) e o Luis Artur Turíbio (Turiba) – dois dirigentes estudantis do PCdoB. Um dos participantes descreveu esse ato: “Queimamos uma bandeira americana, levada por nós, secundaristas, caminhamos com a bandeira vermelha e azul com a estrela dourada dos vietcongs e enforcamos um boneco do Tio Sam”. Grande parte dos manifestantes era ligada a UJP.
Segundo os órgãos de repressão existiam mais de 15 núcleos da UJP nas escolas secundárias da Guanabara. Para Caíque, responsável por essa frente, o número de núcleos era bem maior. Sobre a influência da entidade, nos confidenciou Myriam Ribeiro, “de março de l970, quando foi fundada oficialmente, a setembro de l972, a UJP cresceu vertiginosamente, chegando a ter cerca de 600 membros. Afirmo, com certeza, essa data e esse número de militantes porque, em nosso último ‘ponto’, eu e Lincoln fizemos um balanço geral da situação”. Números realmente espantosos, tendo em vista que vivíamos em meio a uma ditadura militar fascista.
Um dos motivos deste crescimento é que as organizações de esquerda, como a Dissidência Comunista da Guanabara, que tinham força junto aos estudantes, acabaram se afastando do movimento para dedicarem-se quase que exclusivamente à atuação guerrilheira. No início dos anos 1970, quando a UJP ainda se formava, a grande parte das jovens lideranças que partiram prematuramente para a luta armada já estava presa, exilada ou morta. Criou-se, assim, uma vazio político que foi rapidamente preenchido pela combativa juventude criada pelo PCdoB.

Guerrilha, repressão, morte … e esperança.

Após o início da Guerrilha do Araguaia, em abril de 1972, teve início a grande repressão contra o PCdoB nas cidades. No Rio de Janeiro as prisões começaram entre maio e junho daquele mesmo ano. Os primeiros a cair foram os combativos secundaristas. Caíque (Foto ao lado), responsável pelo setor, afirmou: “Só fui saber da extensão das quedas quando já estava no DOI-CODI da Rua Barão de Mesquita no Rio num ambiente de torturas generalizadas”. Do Comitê Secundarista foram presos, além de Caíque, Tasso de Lara Donato Cristina Capistrano (filha de David Capistrano), Iracema Soares, Ubirajara Soares, Luís Artur Turíbio (o Turiba da UBES), Fernando Leite Costa. O principal dirigente comunista preso na ocasião foi José Roberto Brum de Luna, que era membro do Comitê Regional e dava assistência ao comitê secundarista do PCdoB.
Na rede também cairia o secundarista José Roberto Áreas: “uma companheira não resistiu as tortura e levou a repressão no Colégio Estadual Paulo de Frontin onde eu estudava. Ao entrar na escola fui abordado por vários policiais a paisano, me chamando pelo codinome de João. A partir daí fui seqüestrado e me levaram para um carro. Colocaram um capuz na minha cabeça e me fizeram deitar no chão do carro em frente os bancos detrás (…). Começaram a rodar, e conversando entre eles aonde deveriam despachar o meu corpo. (…) A partir dai foi o tempo todo numa roda e levando porrada por todos os lados sem saber de onde vinha porque estava de capuz (…). Depois me levaram para a geladeira, que era um frigorífico e ficava fechado com frio e escuro e na câmara de som, onde se ouvia um som com várias intensidades, que penetrava nos poros como se fosse agulha espetando, ou nos colocavam numa sala, com holofotes do exército aceso em cima de gente fazendo um calor violento (…). Toda hora ouvia a chegada de mais gente, gritos de tortura”. José Roberto calculou que mais de cem pessoas estavam presas ali. Alguns afirmam que, no total, foram 300 os militantes comunistas encarcerados naquela ocasião. A maior operação policial realizada contra o PCdoB nas cidades até então.
Num primeiro momento as estruturas do Comitê Universitário e do Comitê Regional do PCdoB não foram muito atingidas. No entanto, as coisas se complicaram ao longo do ano. A repressão estava decidida a eliminar o PCdoB do Rio de Janeiro, considerado um dos principais celeiros de quadros para a Guerrilha do Araguaia. No final de agosto ocorreu a prisão de Ronald Rocha, dirigente do PCdoB e diretor da UNE. A onda repressiva, finalmente, chegou aos universitários.
Entre dezembro de 1972 e março de 1973 quatro importantes membros do Comitê Central ligados ao Rio de Janeiro foram presos, torturados e assassinados: Carlos Danielli, Lincoln Cordeiro Oest, Luiz Guilhardini e Lincoln Bicalho Roque. O assassinato de Lincoln Bicalho representou um duro golpe contra a UJP. Os principais núcleos agora estavam desorganizados e seus dirigentes presos ou foragidos. Apesar das pesadas baixas, a UJP continuou existindo e resistindo.
Uirtz Sérvulo, por exemplo, ingressou na UJP em 1972 e escapou da onda de prisões. Ele era ligado ao setor da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro e, por segurança, não tinha qualquer contato com o setor estudantil. Entre suas atividades estava a divulgação da Guerrilha do Araguaia. Segundo ele, a UJP ainda se envolveu numa campanha pelo voto nulo nas eleições de 1974. Possivelmente não tenha chegado aos seus quadros a nova diretiva do PCdoB que era votar na oposição à ditadura, ou seja apoiar o MDB contra a ARENA.
Outra ex-militante da UJP, Dilcéia Quintela, ingressou na organização no início de 1974 e atuava em Nova Iguaçu, baixada fluminense. Em 1975 ela e Uirtz foram presos, na nova queda que atingiu o PCdoB no Rio de Janeiro. “Provavelmente, disse-nos ele, o nosso setor foi o último a ser aprisionado pela ditadura, em maio de 1975. Não conheço registro de ações da UJP após estas quedas”. De fato, as novas quedas do Comitê Regional do Rio de Janeiro em 1975, que levaram a morte Armando Frutuoso e as prisões de Jover Telles e José Maria Cavalcante, impuseram obstáculos instransponíveis à existência de uma organização como a UJP.
Durante a sua existência mais de uma centena de jovens militantes foi presa e seviciada nas delegacias e quartéis. Lincoln e Joel morreram sob torturas e outras dezenas tombaram nas selvas do Araguaia. Eles não conseguiram derrubar a ditadura e construir um poder popular como almejavam, mas nos deixaram uma semente. Como afirmou um de seus antigos militantes: “A UJP foi um pólo de resistência à ditadura. Nas condições adversas para a luta popular, contribuiu para manter acesa a chama da revolução no Rio de Janeiro”. Viva a União da Juventude Patriótica.

Referências:

§ Agradeço os depoimentos dados por Carlos Henrique Tibiriçá (o Caíque), Myriam Costa de Oliveira, ex-dirigentes da UJP; Ronald Rocha; José Carlos Áreas; Uirtz Sérvulo; Dilcéia Quintela; Nelson Nahon e Dyneas Aguiar.

§ Estatuto, Programa, jornais e processos contra membros da UJP encontrados na coleção Brasil Nunca Mais que se encontra depositada no arquivo Edgar Leuenroth/Unicamp.

* Augusto Buonicore é historiador e secretário geral da Fundação Maurício Grabois.

O difícil encontro com as feridas da guerra – Damasco, Síria

Domingo é o primeiro dia de trabalho na semana para os sírios. O final de semana começa na sexta-feira, como prega a tradição muçulmana (maioria na população síria), mas o hábito também foi incorporado pelos católicos e cristãos ortodoxos.

Foi no domingo também que iniciamos o primeiro dia de visitas e agendas de trabalho na Síria da delegação composta por organizações filiadas ao Conselho Mundial da Paz e à Federação Mundial das Juventudes Democráticas.

Pontualmente as 8:30h da manhã embarcamos no ônibus na porta do Omayad Hotel (situado na Av. Brasil, no centro de Damasco) em direção à primeira atividade prevista: uma visita a soldados feridos nos conflitos que estão em recuperação no Hospital Militar de Damasco.

Fomos recebidos pelo diretor do hospital, um Comandante do Exercito da Síria. Em um auditório o militar sírio nos apresentou brevemente um panorama sobre os confrontos em curso no país. Relata que o exercito sírio não luta contra seu povo, mas sim o defende de milícias formadas por mercenários vindos principalmente do Afeganistão e do Iraque (durante a ultima guerra no Iraque 2 milhões de refugiados iraquianos migraram para a Síria).

A maior parte dos confrontos entre o Exercito sírio e as milícias mercenárias ocorrem na região norte do país, próximo à fronteira com a Turquia (país com reconhecida hostilidade à Síria).

Em Damasco não houve e não há nenhum tipo de confronto. A capital da Síria tem sido vitimada por covardes atentados terroristas com carros-bomba, que já levaram mais de 30 civis à morte.

O Comandante do Exército destacou ainda a importância do veto imposto por Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU a qualquer tipo de intervenção militar externa em seu país, o que sem duvida, caso ocorresse, desencadearia um grande banho de sangue. Agradeceu também em especial o apoio que o governo e o povo da Síria tem recebido da diplomacia brasileira em meio a esta crise.

Até aqui, as feridas da guerra ainda não haviam sido expostas.

O contato nu e cru com as seqüelas causadas pelo conflito tivemos poucos minutos depois. Encerrada a reunião com o diretor do hospital, fomos levados a uma cerimônia militar fúnebre de três soldados mortos em confronto. O contato tão próximo com o simples caixão de madeira envolto com a bandeira da Síria causou comoção em todos nós. Feitas as homenagens os corpos foram entregues às famílias num clima de profunda tristeza. Perguntei a um militar próximo a idade dos soldados mortos, todos tinham menos de 24 anos.

De volta ao hospital nos dividimos em três grupos para visitar nos quartos os soldados feridos. No primeiro quarto encontramos dois jovens. Um deles, recebia também a visita do pai. Com a ajuda de um tradutor expressamos o nosso sentimento de solidariedade e de desejo de pronta recuperação. Dissemos também os países de origem de cada membro da delegação.

Quando nos preparávamos para partir em direção ao próximo quarto, o pai que visitava o filho ferido, e que até então nos olhava com certa desconfiança, diz emocionado ao tradutor que agradece muito a nossa visita e pede que façamos o possível para ajudar a cessar os conflitos. Estava ali visitando o filho mais velho, um outro, mais novo, morreu em confronto há três meses.

Em outro quarto nos deparamos com um senhor de cerca de 60 anos. Perdeu parte da perna esquerda em uma troca de tiros com grupos milicianos. Estava acompanhado de sua esposa, vestida toda de preto por conta do luto, um dos filhos do casal morreu em uma emboscada a uma patrulha do Exercito em Homs (norte na Síria).

Depois do hospital visitamos a Universidade de Damasco, onde tivemos uma reunião com representantes da União Nacional dos Estudantes da Síria. A UNE deles também representa estudantes de universidades publicas e privadas e conta com a participação de diversas forças políticas. Mas o fato que quero registrar sobre a visita à universidade foi um dialogo que presenciei entre um grupo de estudantes (principalmente mulheres) e alguns membros de nossa delegação. Diziam, revoltados, que há muita mentira nos meios de comunicação sobre a Síria, principalmente por parte da Al Jazzeera, que é ligada ao regime do Quatar. Parte do grupo relata que há duas semanas participou de uma grande manifestação Damasco em repudio às ações das milícias e em apoio às medidas do governo, mas que foi noticiado pela CNN e BBC que se tratava de uma passeata de opositores de Bassar Al Assad.

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No regresso ao hotel, após um dia inteiro circulando pela cidade, o clima entre nós era de indignação e perplexidade. O contraste entre os feridos e mortos que vimos no hospital com a normalidade da vida em Damasco (lojas abertas, universidades funcionando, ruas cheias e movimentadas) deixa evidente que o conflito na Síria é uma ação orquestrada por grupos mercenários armados, incentivados por minorias ultra-sectárias islâmicas que de forma oportunista e vergonhosa contam com o apoio da União Européia e dos EUA.

Vídeo

1 minuto na noite de Damasco

Um breve registro em uma movimentada rua no centro de Damasco. Sexta-feira, 20 de abril de 2012.

A chegada a Damasco

Acabo de chegar a Damasco, capital da Síria. Como parte do meu plano de registrar toda a viagem com a maior riqueza possível de informações faço os meus primeiros registros.

A viagem de Dubai a Damasco foi rápida e tranqüila. Um abismo de modernidade, tecnologia e um pouco de frescura separam o Aeroporto de Dubai do Aeroporto Internacional de Damasco. Logo na chegada fui recebido pelos sempre atenciosos companheiros da União Nacional dos Estudantes da Síria. Comigo chegou também uma dirigente da Juventude do Partido Comunista da Rússia. 

Ainda no Aeroporto tomamos um café à moda árabe (sem coar e sem açúcar, forte e saboroso como tem que ser) e recebemos as primeiras informações sobre o programa da nossa visita. Os compromissos só começam amanhã (21/04). São esperadas mais de 20 organizações juvenis do mundo todo, o presidente e o secretário-geral da Federação Mundial das Juventudes Democráticas (FMJD) e a brasileira e presidenta do Conselho Mundial da Paz, Socorro Gomes.

No caminho do aeroporto para o hotel pergunto ao amigo Arsheed o que fazem centenas de pessoas sentadas durante uma longa extensão na grama nos arredores da rodovia e ele me responde: “nosso fim de semana começa na sexta-feira, as pessoas se reúnem para fazer um picknick com chá, damasco e Narguilé. É dia de celebrar a vida”.

Damasco, 20 de abril de 2012.
18:40h.

Estatuto da Juventude: unidade para avançar nas conquistas!

 

Tudo indica que a Comissão de Constituição e Justiça do Senado irá votar e muito provavelmente aprovar hoje  (15/02) o Projeto do Estatuto da Juventude relatado pelo Senador Randolfe Rodrigues (PSOL/AP)
O Estatuto da Juventude é há muito reclamado pela juventude brasileira. Correto está o país, ao  reconhecer seus jovens como detentores de direitos  inerentes à sua condição e insere a juventude como protagonista de um projeto nacional de desenvolvimento.
O texto que chegou no Senado Federal passou por um longo período de debate na Câmara dos Deputados. Uma Comissão Especial foi criada para tratar do tema e concluiu seus trabalhos aprovando o texto base do Estatuto no final de 2010. A Comissão foi presidida pelo então Deputado Federal Lobbe Neto (PSDB/SP) e relatada pela Deputada Federal e dirigente nacional da UJS, Manuela D’ávila (PCdoB/RS). Foram realizadas inúmeras audiências publicas, com a participação direta do movimento estudantil, de diversas organizações de juventude, do Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE) e de esferas governamentais relacionadas com o tema.
O resultado desse intenso debate foi materializado no texto final apresentado  por  Manuela D’ávila ao plenário da Câmara  e aprovado em outubro de 2011 na integra com um único voto contrário, do ultra-direitista Jair Bolsonaro (Deputado Federal PP/RJ).
A aprovação do Estatuto na Câmara dos Deputados foi amplamente comemorada por toda a juventude, de todos os matizes políticos:  UNE, UBES, ANPG, CONJUVE, UJS, JPMDB, JS-PDT, JSB, JPT, JPL, JPSDB, UNE, UBES, ANPG, CONJUVE, PJ, juventude negra, juventude trabalhadora, movimentos juvenis, a Frente Parlamentar de Juventude, etc… Uma grande vitoria foi  reunir tão amplos setores da sociedade em torno de novos direitos para a juventude brasileira com tamanho consenso, resultado de longa negociação.
Dentre os inúmeros avanços do Estatuto da Juventude chama atenção o artigo que institui a meia-entrada para estudantes em eventos culturais e esportivos em todo o país. A meia-entrada estudantil é uma conquista histórica da juventude brasileira porque pioneira como política pública que atrai a juventude para a educação, mas nunca foi regulamentada por lei nacional, valendo por leis estaduais.
Ao longo do tempo podemos dizer que tem sido um indicador da democracia o Estado reconhecer  o direito do estudante de ter acesso à meia-entrada através de sua Carteira de Identificação Estudantil emitida por sua entidade representativa. Nos momentos de ataque a democracia atacou-se também esse direito, como na ditadura militar (1964-1985), que proibiu o funcionamento de entidades estudantis livres. Lamentavelmente, as lutas estudantís e populares contra as políticas neoliberais de FHC tiveram uma resposta do estado nacional contra a juventude e a educação, com a malfadada MP 2208, um ataque direto às entidades estudantis e ao direito à meia-entrada estudantil, que se descaracterizou, prejudicando milhões de jovens.
Com a votação do Estatuto da Juventude, o Senado pode corrigir essa injustiça histórica quando o Brasil aposta massivamente na educação de sua juventude, aprovando um direito que estimula o estudo  e assim poderá assegurar a milhões de jovens um trabalho decente e qualificado para um país desenvolvido e culto.
Mas a aprovação do Estatuto no Senado é ainda uma batalha vencida. Posições conservadores querem dividir a juventude e apartá-la da educação libertadora, como expediente para negar uma imensa conquista da juventude brasileira.
Ademais, além de desestimular o estudo, quem defende apenas a idade como critério do benefício propõe menos brasileiros atendidos com o direito da meia entrada. Não é hora de opor 50 milhões de jovens na faixa de 15 a 29 anos contra mais de 62 milhões de estudantes brasileiros (ensino básico, técnico, superior e pós-graduação). Num momento em que conquistamos a tardia ampliação do direito de todo jovem poder ter acesso à educação publica, gratuita e de qualidade, garantir a meia-entrada estudantil em território nacional é sem duvida um direito substantivo com verdadeira inclusão da juventude brasileira, que terá o seu direito assegurado.
E uma vitória democrática, corrigindo os erros do passado e afirmando a autonomia das entidades estudantis, que a História provou serem imprescindíveis à defesa do Brasil, da educação e da democracia.

¡ASESINADO MILITANTE DE LA JUVENTUD COMUNISTA COLOMBIANA!


¡ASESINADO MILITANTE DE LA JUVENTUD COMUNISTA COLOMBIANA!
Siendo las 9:00 pm del día 16 de agosto del presente, se encontraban departiendo los camaradas RAFAEL ANDRÉS GONZALEZ GARNICA y FRANKLIN MEDINA en el restaurante Tricarne ubicado en el municipio de Cartagena del Chairá (Caquetá), cuando dos sicarios abrieron fuego indiscriminadamente matando en el acto a RAFAEL ANDRÉS. El camarada FRANKLIN logró escapar del tiroteo pero hasta la fecha se desconoce de su paradero.
Los camaradas administraban un negocio de fotocopiadoras en este municipio y hacía varios días se venían presentado provocaciones por parte de la fuerza pública, en el sentido de sindicarlos como colaboradores de la subversión porque supuestamente en ese establecimiento se reproducía propaganda de las FARC – EP. Es importante mencionar que el municipio de Cartagena del Chairá se ha convertido en los últimos tiempos en un teatro de operaciones militares generando una verdadera crisis humanitaria por razones de desplazamiento y de violaciones de derechos humanos.
La JUVENTUD COMUNISTA COLOMBIANA – JUCO condena estos criminales hechos y exhorta a las fuerzas vivas de la nación y la comunidad internacional a rechazar el exterminio sistemático y la desaparición forzada como estrategia de Estado para eliminar las fuerzas de izquierda y la oposición democrática en Colombia. A la fiscalía, procuraduría y la defensoría del pueblo solicitamos las debidas investigaciones penales y disciplinarias con el fin de establecer la responsabilidad de los organismos de seguridad del Estado con estos execrables hechos.
Finalmente queremos expresar nuestras condolencias a los familiares de las víctimas y exigimos a los responsables de esta barbarie el respeto por la vida, la libertad y la integridad física del camarada FRANKLIN MEDINA. Lo queremos pronto de regreso, sano y salvo con sus familiares, amigos y camaradas.  
 
¡POR NUESTROS MUERTOS NI UN MINUTO DE SILENCIO,
TODA UNA VIDA DE COMBATE!
 
COMITÉ EJECUTIVO CENTRAL – CEC
 
Bogotá D.C. Agosto 17 de 2011.
 
“En la lucha por la paz democrática, está la juventud de Colombia”