Uma política para a juventude da Amazônia

*Dando sequência à publicação de artigos sobre a juventude e as eleções de 2010, publico hoje um artigo do companheiro Leopoldo Vieira, do blog Juventude em Pauta.

De acordo com o  PNAD de 2007, 61,5% da população da Amazônia é infanto-juvenil (0 a 29 anos). Isso considerando apenas os estados do Norte, excluindo-se, portanto, o Maranhão e o Mato Grosso. A faixa de 15 a 29 anos, por sua vez, compreende 29,1% desse total. Logo, a idéia de que o Brasil tem um bônus demográfico juvenil (1/3 dos habitantes do país) e disso demanda um investimento geracional para o desenvolvimento nacional, sendo este grupo social ponto de partida para reprodução ou superação do nosso status quo, tem plena validade na Região.

A juventude tem um imenso potencial na Amazônia

Contudo, lendo os números do IBGE, o desafio amazônico é ainda maior, a juventude é “mais estratégica” do que no restante da nação para o desenvolvimento, uma vez que precisamos criar condições para que quando as crianças de hoje se tornarem adolescentes, haja um outro padrão de possibilidades.

Essa relação jovem-desenvolvimento na Amazônia ainda vai além, imiscuindo-se na discussão de qual o melhor projeto para a região, onde se opõem o “progresso a todo custo” versus sustentabilidade. Então, é pelo investimento geracional que mudaremos os padrões sócio-econômicos e culturais amazônicos.

Sendo assim, a grande tarefa programática é promover um investimento geracional que forme pessoas munidas de uma profunda consciência ambiental, protagonistas de iniciativas econômicas sustentáveis, produtoras de conhecimento baseado na tecnologia limpa, ambientalmente correta e socialmente justa, e comprometidas com a defesa desse patrimônio brasileiro da biodiversidade mundial. Isso requer uma mudança brusca de paradigma: sair da quase total invisibilidade da qual padece essa enorme diversidade da condição juvenil amazônica para uma urgente política específica.

Uma diversidade juvenil que exige uma variedade de respostas

O Índice de Desenvolvimento Juvenil (IDJ), criado pela ONU em 2003, referenciado na educação, saúde e renda apenas, para medir as condições de vida dos jovens, coloca os estados da Amazônia (novamente considerando só a Região Norte) entre os piores do Brasil. Pelo IDJ, nenhum estado nortista se posiciona sequer  entre os dez melhores índices nacionais. Esses se resumem às unidades federativas do centro-sul.

No campo habitam 27% da população juvenil da Amazônia, quando a média brasileria é de 16%. E isso porque se computa, generosamente, pequenas vilas e municípios como meio urbano, quando eles são quase indistintos do espaço rural. Um campo que, a cada dia, se depara com a introdução de chagas sociais tipicamente “urbanas”: drogatização, prostituição, violência, criminalidade, etc.

Segundo os recentes dados do IPEA, publicados no livro Juventude e Políticas Sociais no Brasil, na Região Norte, 13,2% das jovens entre 15 e 19 anos já têm filhos, sendo que 44,4% delas estão na faixa de renda de até meio salário mínimo.Uma em cada dez meninas de 10 a 19 anos tem pelo menos um filho. 64,61% dessas só possuem, no máximo, sete anos de escolaridade. Em 2008, foram 42.614 novas  jovens mães. Das moças entre 10 e 17 anos com filhos, 75% não estudam e 57% delas nem trabalham.

A juventude indígena, segundo estudos da ONU e Funai, enfrenta dilemas ultrasingulares, como altos índices de suicídio, obstáculos à promoção da identidade e da tradição de suas comunidades, dificuldade de acesso à saúde, impasses lingüísticos, desnutrição, cooptação por gangues que se organizam ao redor das aldeias, violência dentro das escolas e expansão vertiginosa (e focada nos jovens) do alcoolismo e da AIDS, além de que 38% dos 750 mil índios brasileiros vivem em situação de extrema pobreza, o que afeta pesadamente os jovens das aldeias. Esse pelo menos é o quadro apontado pelo estudo “A situação dos povos indígenas no mundo ”,  lançado pela ONU em janeiro e ainda somente com versão em inglês.

Condição engendrada por políticas errôneas de assimilação, desapropriação de terras, marginalização/racismo nos ambientes de convívio misto (como escolas) e abusos de forças militares. Não é à toa que, antes fenômeno marcante do jovem camponês, agora os jovens índios acabam deixando suas áreas ancestrais e migram para as cidades em busca de melhores oportunidades e acabam, quase sempre, tendo o mesmo final dos primeiros: viver em favelas, marginalização, exploração sexual etc.

Sem contar os tais “grandes projetos”, remanescentes do desenvolvimentismo de direita predominante na ditadura e do plano de “colonização” da Amazônia, que muito levaram em riquezas e recursos naturais e pouco ofereceram em oportunidades para os jovens locais, desde as passadas gerações.

Sendo assim, uma política – urgente, necessária e fundamental – para a juventude da Amazônia requer pensar na educação, trabalho, cultura, inovação tecnológica, esporte, lazer, saúde, proteção, com recortes que incorporem à questão rural, da identidade e pertencimento, renda, interiorização e muita especificidade na abordagem. Por isso foi fantástica e muito acertada a articulação dos jovens petistas da Amazônia, que se reuniram durante o Seminário “Amazônia: Caminhos para o Desenvolvimento Econômico, Social e Sustentável coma inclusão do seu povo”, realizado em Belém, nos dias 15, 16 e 17 e formularam uma Carta para ser incorporada na plataforma voltada aos jovens da campanha da ex-ministra Dilma, com idéias e propostas para essa política especial, da qual tive a honra de ser um dos idealizadores, junto com as dirigentes nacionais da JPT, Ana Tereza Ferreira e Márcia Ribeiro, e da professora Jacqueline Freire, da UFPA, que tem sua pesquisa voltada aos jovens ruras e ribeirihos e tem dado uma inestimável contribuição a este debate.

São 13 pontos certeiros, que colocam a juventude do PT Amazônico cumprindo seu papel central na disputa dos jovens da região e no centro da discussão estratégica sobre desenvolvimento sustentável, diferencial que terá que ser pauta na campanha de Dilma Presidente (veja aqui a Carta e seus 13 pontos). A isso, acrescentaria a constituição de mecanismos e instrumentos mais firmes para obrigar a grande iniciativa privada que opera na Amazônia, com a batuta dos “grandes projetos”, a intensificarem sua “responsabilidade social”, através do investimento na educação para o trabalho de milhões de jovens para incorporá-los ao seu quadro funcional posterior.

Projeto político

Todavia, o desafio não se reduz às questões sociais. Para dar cabo dele é preciso fortalecer, empoderar e projetar politica e programaticamente os jovens da Amazônia, para que sejam vanguardeiros dos processos políticos juvenis do país, presentes em espaços de direção, visibilidade e com capacidade de influenciar a formulação de programas, ações e projetos.  Jamais recaindo no discurso falso e fácil do “Norte contra o Sul”, mas se integrando à dinâmica nacional de modo a fazer  valer o peso da militância juvenil na região, combinado com a real importância estratégica e geopolítica dela no contexto.

É também ‘geracionalmente’ que se vai criar a força que a região precisa ter pra ser valorizada e defendida e isso começa com essas articulações e com essas demonstração de capacidade de formular política consistente pelas próprias jovens lideranças amazônicas.

Esse é o caminho para criarmos aquilo que se espera como a “juventude ecológica”, a “juventude do meio ambiente”, a “juventude do século XXI”, que já pense a vida protegendo, conservando e convivendo com a natureza, com energia e esperança para resolver os dilemas da Amazônia.

Leopoldo Vieira é consultor para o desenvolvimento de políticas públicas e legislação de juventude, editor do blog Juventude em Pauta e autor de A Juventude e a Revolução Democrática.

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